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Guerreira: Wilma entra para a história como a primeira governadora do RN

06/08/2026

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Santinho usado por Wilma na campanha de 2002 / Saindo de 1% nas peimeiras pesquisas eleitorais para 61,05% nas urnas, Wilma de Faria conquistou o resultado inesperado - Foto: Reprodução

 

Por Fernanda Sabino

A política do Rio Grande do Norte ganhou um novo rumo em 27 de outubro de 2002. Naquele domingo, Wilma de Faria (PSB) derrotou Fernando Freire (PPB) com 820.541 votos, o equivalente a 61,05% dos votos válidos, tornando-se a primeira mulher eleita governadora do Estado pelo voto direto. Mais do que uma vitória eleitoral, o resultado rompeu décadas de comando masculino e consolidou a trajetória da líder que passaria a ser conhecida definitivamente como “A Guerreira”.

Antes da vitória histórica, em abril daquele ano Wilma exercia o terceiro mandato como prefeita de Natal e desfrutava de altos índices de aprovação popular. Ainda assim, tomou a decisão mais ousada de sua carreira política: renunciou ao cargo para disputar o Governo do Estado. Nas pesquisas, aparecia com apenas 1% ou 2% das intenções de voto e enfrentaria duas das maiores estruturas políticas do Rio Grande do Norte: Fernando Bezerra, apoiado pela família Maia, e Fernando Freire, então governador em exercício, respaldado pelo grupo Alves.

Com a renúncia, o vice-prefeito Carlos Eduardo Alves assumiu definitivamente a Prefeitura de Natal, iniciando uma trajetória política própria que o levaria, anos depois, novamente ao comando da capital.

Para o jornalista Túlio Lemos, que acompanhou a campanha de perto, a renúncia foi o primeiro movimento que transformou aquela eleição em um dos capítulos mais marcantes da política potiguar.

“Ela renunciou à Prefeitura de Natal sem ter apoio político nem respaldo eleitoral. Foi enfrentar duas das maiores máquinas políticas do Estado. A eleição começou marcada por esse gesto de coragem”, relembra.

Sem a estrutura dos adversários, Wilma percorreu o interior apostando no contato direto com a população. Enquanto Fernando Bezerra e Fernando Freire concentravam forças um contra o outro, ela ocupava espaço nas ruas e ganhava visibilidade. Pequenos carros de som, apelidados de “baratinhas”, anunciavam sua chegada às cidades e ajudavam a mobilizar os eleitores para os comícios.

Na avaliação de Túlio, os adversários demoraram a perceber que a candidatura crescia.

“Eles ficaram batendo um no outro e não perceberam o crescimento de Wilma. Quando quiseram reagir, já era tarde. Ela garantiu a vaga no segundo turno e depois conquistou uma vitória incontestável.”

Contrariando as previsões, Wilma terminou o primeiro turno na liderança, com 376.782 votos (36,26%), seguida por Fernando Freire, com 331.846 (31,93%). Favorito no início da disputa, Fernando Bezerra ficou em terceiro, com 276.739 votos (26,64%). No segundo turno, com o tempo de televisão igualado e novos apoios políticos, Wilma ampliou a vantagem e derrotou Fernando Freire por 820.541 votos (61,05%) a 523.614 (38,95%), iniciando um ciclo político confirmado quatro anos depois com a reeleição.

Sem recursos para combater os grandes grupos políticos, Wilma apostou numa campanha de “corpo a corpo” – Foto: Reprodução

Coragem nasceu antes da campanha

Para quem conviveu com Wilma de Faria, a decisão de renunciar a uma prefeitura bem avaliada para disputar o Governo do Estado, mesmo com um baixo índice nas pesquisas, refletia uma característica que marcou toda a sua trajetória: a coragem de enfrentar desafios.

A ex-deputada estadual Márcia Maia, filha da ex-governadora, afirma que a coragem demonstrada em 2002 refletia uma característica que acompanhou a mãe durante toda a vida.

“Ela sempre foi uma pessoa ousada, corajosa, batalhadora, determinada e muito estudiosa. Era uma mulher à frente do seu tempo, protagonista da própria história.”

Segundo Márcia, praticamente todos tentaram convencer Wilma a permanecer na Prefeitura.

“Todo mundo dizia para ela não renunciar. Achavam que era uma aventura disputar o Governo aparecendo com apenas 1% ou 2% das intenções de voto. Muita gente acreditava que ela deveria continuar prefeita.”

Apesar das resistências, Wilma manteve a convicção de que estava preparada para dar um passo maior na vida pública.

“Ela acreditava que o que tinha conseguido fazer por Natal podia fazer pelo Rio Grande do Norte inteiro. Ela tinha um desejo enorme de servir às pessoas e muitos projetos para implantar no Estado.”

Segundo a filha, essa disposição para enfrentar desafios acompanhou toda a trajetória da ex-governadora. Casou-se aos 17 anos, interrompeu os estudos, voltou à universidade, formou-se em Letras, tornou-se professora, foi deputada federal constituinte, primeira prefeita de Natal e, depois, primeira mulher eleita governadora do Rio Grande do Norte.

“Ela sempre foi uma sonhadora, mas daquelas pessoas que acreditam no sonho e lutam para materializá-lo.”

Campanha construída ao lado do povo

A ex-governadora do Rio Grande do Norte morreu em 2017, aos 72 anos – Foto: Reprodução

 

Sem o apoio das principais lideranças políticas no primeiro turno, Wilma apostou no contato direto com a população, percorrendo os municípios e ouvindo as demandas de cada cidade. Para Márcia Maia, essa proximidade foi um dos diferenciais que impulsionaram a candidatura até a vitória.

“Ela chegava às cidades e conversava com funcionários dos hospitais, professores, comerciantes, feirantes, padres, pessoas que estavam nas calçadas. Escutava as pessoas antes de falar.”

Segundo Márcia, esse comportamento aproximou Wilma do eleitorado do interior e fez a candidatura ganhar força de maneira gradual.

“Ela era uma novidade. Nunca uma mulher tinha governado o Rio Grande do Norte. As pessoas queriam conhecê-la. A curiosidade aumentava a cada cidade visitada e a campanha foi ganhando força.”

Na avaliação da ex-deputada, a ausência de grandes apoios políticos acabou sendo compensada pela confiança conquistada junto à população.

“Ela não tinha lideranças expressivas ao lado, mas tinha o apoio das pessoas mais simples. Foi uma campanha muito bonita, com o povo participando. Ela terminou o primeiro turno em primeiro lugar e venceu o segundo com tranquilidade.”

O resultado daquela eleição mudou definitivamente a história política do Rio Grande do Norte. Wilma não apenas derrotou duas das maiores estruturas partidárias da época, como interrompeu o tradicional revezamento de poder entre os grupos que comandavam o Estado havia décadas.

Primeira prefeita de Natal, deputada federal constituinte e primeira mulher eleita governadora do Rio Grande do Norte, Wilma transformou uma candidatura inicialmente desacreditada em uma das campanhas mais emblemáticas da política potiguar. Quatro anos depois, confirmaria a força daquele projeto ao conquistar a reeleição.

Wilma de Faria morreu em 15 de junho de 2017, aos 72 anos, quando exercia o mandato de vereadora de Natal. Mas a campanha de 2002, iniciada em um cenário de forte adversidade política, permanece como um dos capítulos mais marcantes da história eleitoral potiguar. Mais do que conquistar o Governo, “A Guerreira” abriu caminho para a presença feminina nos espaços de poder e escreveu seu nome de forma definitiva na história do Rio Grande do Norte.

 

Fonte: Diário do RN

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