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Pesquisador da UFRN cria aparelho para reduzir ruído de turbinas eólicas

01/11/2026

Pesquisador da UFRN cria aparelho para reduzir ruído de turbinas eólicas

Equipamento atua sobre ruído pulsante dos aerogeradores sem interromper a geração de energia - Foto: Cedida

 

O crescimento da produção de energia eólica no Rio Grande do Norte também traz desafios para quem vive nas proximidades dos parques de geração. Entre eles está o ruído produzido pelos aerogeradores, especialmente um tipo de som pulsante que pode se tornar incômodo durante a noite e interferir na qualidade do sono. Para enfrentar esse problema, uma startup potiguar desenvolveu uma tecnologia que busca reduzir a percepção desse ruído sem exigir que as turbinas diminuam seu funcionamento.

Felipe Neves é o fundador da startup Jupitera, incubada no Instituto Metrópole Digital (IMD) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e no Metrópole Parque. O pesquisador criou o PER (Perturbador de Envelope Rítmico), equipamento compacto que deverá ser instalado dentro das residências, especialmente nos quartos. A proposta é atuar sobre a característica rítmica do som que chega dos parques eólicos, sem interferir na operação dos aerogeradores.

A ideia surgiu durante uma aula de mestrado no Programa de Pós-Graduação em Gestão, Inovação e Sustentabilidade (PROPGIS) da UFRN, quando um professor mencionou as reclamações de moradores que viviam próximos a parques eólicos e enfrentavam dificuldades para dormir. O que chamou a atenção do pesquisador foi justamente o fato de que o barulho nem sempre era alto, mas permanecia pulsando durante a noite.

Decidido a compreender melhor o problema, Felipe visitou comunidades no entorno dos parques e conversou com moradores. Nas visitas, ouviu histórias de pessoas que já identificavam mudanças no vento pelo ritmo do barulho das turbinas e de famílias cujas crianças acordavam durante a madrugada.

Uma das conversas, segundo ele, ajudou a compreender a dimensão do problema e a necessidade de buscar uma solução que não colocasse a geração de energia e a qualidade de vida dos moradores em lados opostos.

“O que mais me marcou foi perceber que ninguém ali era contra a energia eólica. As pessoas tinham orgulho do que o Rio Grande do Norte representa para o Brasil. Elas só queriam voltar a dormir”, relata.

O pesquisador também procurou ouvir as empresas responsáveis pelos parques eólicos. Segundo Felipe, o setor tem interesse em resolver os conflitos relacionados ao ruído, mas dispõe de poucas ferramentas para isso. Atualmente, uma das principais alternativas diante das reclamações é reduzir a operação das turbinas, o que implica produzir menos energia.

“Foi aí que veio a virada: se o que incomoda é o ritmo, e não só o volume, então a solução precisa agir sobre o ritmo, dentro de casa, sem parar o vento”, explica.

Equipamento não interfere no funcionamento das turbinas

O diferencial do PER está na forma como pretende combater o incômodo. Em vez de tentar eliminar completamente o som ou abafá-lo com outro ruído, o equipamento atua sobre o chamado envelope rítmico, que corresponde à variação da intensidade sonora ao longo do tempo.

É essa alternância que produz a sensação de um som repetitivo, semelhante a um “vuuum… vuuum”, provocado pela passagem das pás dos aerogeradores. Segundo Felipe, essa característica pode ser especialmente perturbadora durante o período de descanso.

“O PER não mexe nas turbinas nem nas pás, e essa é justamente a sua força. O parque continua gerando energia normalmente”, afirma.

Pesquisador da UFRN cria aparelho para reduzir ruído de turbinas eólicas

A tecnologia atua sobre a modulação de amplitude do ruído de aerogeradores, especialmente o som rítmico produzido pelas pás – Foto: Cedida

 

Instalado dentro da residência, o equipamento trabalha sobre o ambiente acústico do quarto e busca desfazer a regularidade rítmica percebida pelo cérebro. A intenção é reduzir os despertares noturnos e melhorar a qualidade do sono sem exigir alterações na operação dos parques.

O projeto-piloto prevê a participação de moradores, com um grupo de controle que receberá dispositivos inoperantes, sem que os participantes saibam qual equipamento estão utilizando. A pesquisa também acompanhará indicadores objetivos do sono e do organismo, como actigrafia e variabilidade da frequência cardíaca.

“Vamos provar isso com ciência de verdade”, diz Felipe, ao explicar a metodologia prevista para avaliar os resultados do equipamento.

Primeiros equipamentos devem chegar às casas em 2027

O PER já passou por simulações computacionais e verificações em bancada do princípio de funcionamento. A equipe também desenvolveu um protótipo físico em escala real, produzido por impressão 3D.

Atualmente, o projeto está na fase de prova de conceito, entre os níveis 3 e 4 de maturidade tecnológica (TRL), escala utilizada para avaliar o desenvolvimento de novas tecnologias.

Os próximos passos incluem testes em ambiente controlado na UFRN, no Instituto Metrópole Digital, e a continuidade do diálogo com as comunidades próximas aos parques eólicos.

A previsão é que os primeiros equipamentos sejam instalados nas residências em 2027, durante um projeto-piloto com voluntários. A expectativa do pesquisador é que a tecnologia esteja pronta para chegar ao mercado em aproximadamente nove meses a um ano.

“Em 2027 os primeiros PERs vão entrar nas casas, no piloto com voluntários. Nossa meta é ter o equipamento pronto para chegar às residências em cerca de nove meses a um ano”, afirma.

Startup vence concurso nacional e apresenta projeto na Alemanha

O desenvolvimento do PER também rendeu reconhecimento nacional à Jupitera. A startup conquistou o primeiro lugar no Concurso Ideias Inovadoras, superando 101 propostas de 11 estados brasileiros.

A conquista veio após diferentes etapas de avaliação por bancas técnicas e uma apresentação presencial dos projetos finalistas em Salvador.

A empresa também apresentou a tecnologia na Alemanha, durante o simpósio de Halle, ligado ao grupo de trabalho da Agência Internacional de Energia (IEA Wind Task 62), que discute a aceitação social da energia eólica.

Pesquisador da UFRN cria aparelho para reduzir ruído de turbinas eólicas

A empresa recebeu R$ 10 mil pelo primeiro lugar no Concurso Ideias Inovadoras – Foto: Cedida

 

Para Felipe, a participação internacional representa a oportunidade de levar uma pesquisa desenvolvida no Rio Grande do Norte para o debate global sobre os impactos da geração eólica nas comunidades.

“Isso coloca uma pesquisa nascida no Rio Grande do Norte na mesa de quem discute esse tema no mundo”, destaca.

O pesquisador afirma ainda que a Jupitera mantém diálogo com especialistas em ruído ambiental e saúde da Alemanha, Holanda, Inglaterra e Austrália.

“Para a UFRN, é a prova de que a pesquisa da pós-graduação gera tecnologia com impacto real na vida das pessoas”, avalia.

Empresa prepara patente e busca investidores

A Jupitera também trabalha para viabilizar comercialmente a tecnologia. O pedido de patente do PER está em processo de depósito junto ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), por meio da Agência de Inovação da UFRN (AGIR), em cotitularidade com a universidade.

Entre os próximos passos estão o fechamento de uma rodada de investimentos pré-seed e a execução de um projeto de desenvolvimento tecnológico com a unidade da Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (EMBRAPII) vinculada ao IMD, em parceria com o Sebrae.

Enquanto o equipamento avança para os testes com moradores, a empresa também pretende oferecer às operadoras de parques eólicos serviços de caracterização acústica e elaboração de laudos técnicos. A proposta é ajudar as empresas a compreender as reclamações das comunidades e identificar alternativas para responder aos problemas relacionados ao ruído.

Felipe acredita que a expansão da energia renovável precisa considerar também as condições de vida de quem mora perto dos empreendimentos. A tecnologia, segundo ele, nasceu justamente da tentativa de aproximar essas duas necessidades.

“A Jupitera nasce para que energia limpa e sono tranquilo caminhem juntos”, resume.

 

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