O Miguel de Todos os Amigos…
24/05/2014
Neste domingo completa uma semana do trágico acidente que vitimou o amigo Miguel Josino, na segunda será a missa de 7º dia na catedral metropolitana, mas ainda é difícil acredita na partida de Miguel. Saulo Carvalho nos envia sua “despedida”, ficou muito bom Saulo. Segue:
O Miguel de Todos os Amigos…
Ainda posso ouvir a voz dele dizendo: sen-sa-ci-o-nal! O telefonema sempre atencioso pelas manhãs. O abraço apertado. Os risos fartos no caminho do almoço, os vinhos degustados, as músicas prediletas e as poesias preferidas sempre compartilhadas. É verdade, sim. Ele se foi. Miguel Josino Neto foi “arrancado” de todos nós. Foi meu amigo, sim. Amigo sensível, devotado e incentivador. Esteve comigo num dos momentos mais difíceis da minha vida: o momento da espada cortante da injustiça. Pois bem, ele esteve comigo e, graças a ele, consegui forças para superar o desafio que, como ele dizia se converteu em bênçãos. Na confraria dos vinhos, nos almoços das sextas-feiras ou nas manhãs de sábado em Ary, estávamos sempre juntos. Sorrindo, declamando, vivendo, cantando, semeando sonhos, selecionando canções e falando de livros. Muitos livros. Tantos livros. Vastos livros.
Em 2011, organizamos Marcelo Navarro, Luís Marcelo Cavalcanti, ele e eu, o lançamento em Natal de uma das maiores biografias de Fernando Pessoa em Língua Portuguesa, “Fernando Pessoa – Uma Quase Autobiografia”, do amigo comum, o advogado pernambucano José Paulo Cavalcanti Filho, na Livraria Siciliano. O quórum não foi dos maiores, porém muito qualificado. Daí por diante estávamos sempre juntos e falando sobre Fernando Pessoa e, quase sempre, nos aprofundando em seu universo interior. Afirmo isto, pois, assim como Fernando Pessoa, Miguel Josino Neto também tinha o seu próprio universo. Um mundo transbordante de alegria, amor, poesia, música, aromas, sabores, lembranças, saudades e ritmos, tão largo como sua humanidade infinita e a sutileza dos seus gestos acolhedores e ternos de bondade.
No dia-a-dia, confidenciávamos segredos do bem e ríamos das peculiaridades do mundo, tão nossas, tão próximas a nós, com a mesma frequência que almoçávamos na Peixada da Comadre, numa terça ou quarta da semana, apenas para atualizar os assuntos e rir um pouquinho, o que já era prenúncio ideal do almoço da sexta, com o grupo completo. Por vezes, ríamos de nós mesmos, com toda a naturalidade, entre uma ou outra música e um caldinho de peixe com pão torrado.
Não declinarei aqui palavras sobre o jurista nato, o advogado talentoso e o procurador de estado respeitado em todo o Brasil. Este lauto papel não me cabe. Que o aproveitem os formalistas e as autoridades no assunto. Deixarei aqui algumas palavras alinhavadas sobre o meu amigo querido, sábio, leal, inesquecível e insubstituível, Miguel Josino Neto.
A “indesejada das gentes”, como dizem os mais antigos de Portugal, chegou cedo para o nosso Miguel. Jamais vi comoção igual no Rio Grande do Norte.
Mesmo à distância. Ele era mesmo único e genuinamente especial. Cada um de nós, de maneira personalíssima ficou órfão da sua amizade tão completa e humanamente acessível. Cada um de nós, familiares e amigos, carregará essa lacuna afetiva para o resto de nossos dias. Tornamo-nos, sem querer, cada qual, menos poeta, menos musical, menos sorridente, menos viajante, menos leitor, menos feliz e, sobretudo, menos gente.
Do meu jeito e modo, na distância das Minas Gerais, com o coração eivado de saudade, me somo à dor e esperança de Seu Sebastião Leite e família, da querida Karla Motta, de Pedro, das suas meninas Marília, Talita, Camila e Rebeca e, até mesmo, do pequeno Bernardo, que chegou há pouco.
Sob inspiração de Miguel Josino Neto e ombreado por toda uma legião de amigos, confrades, colegas, admiradores e alunos, busco encontrar a paz, a conformação e alegria de seguir em frente. Afinal, quis Deus que eu também tivesse um Miguel em casa, o meu pequeno Miguel Carvalho, que crescerá sabendo que seu pai foi amigo de um grande homem, um humanista que sabia viver sua humanidade em plenitude, com todas as suas forças e verve intacta. Um homem verdadeiramente bom e temente a Deus. Este homem carregava seu nome: Miguel. O Miguel de Todos os Amigos…
