Mulher denuncia médico Iaperi Araujo por violência obstétrica em Natal

15/07/2014

Nessa segunda-feira, 14 de julho, a Secretaria Municipal de Saúde de Natal, a Ouvidoria da Prefeitura de Natal/RN, a Agência Nacional de Saúde e a Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República receberam mais uma denúncia de violência obstétrica, do que ficou conhecido como “Caso da Placenta”.

 

O caso aconteceu no dia 2 de julho em um hospital privado de Natal/RN, e foi amplamente divulgado através das redes sociais. Primeiro, na versão do médico obstetra, depois, no relato de parto da parturiente.

 

A denúncia feita pela vítima foi encaminhada pela Associação Artemis, aceleradora social, através do relato colhido pelo Movimento de Humanização do Parto e do Nascimento em Natal e divulgado no blog de alcance nacional Cientista que virou Mãe, de autoria de Ligia Moreiras Sena, doutora em saúde coletiva e pesquisadora na área de violência obstétrica.

 

O documento de denúncia aponta diversas legislações técnicas de saúde que foram infringidas, colocando a saúde da mãe e do bebê em risco. A principal delas diz respeito à episiotomia, um corte feito no períneo da mulher sob a justificativa de facilitar a passagem do bebê na hora do parto.

 

“A episiotomia é expressamente não recomendada pela Federação Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), e por um documento técnico que compõe a Resolução 262/2011 da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). O hospital em questão é de convênio, deveria observar essa resolução e a ANS tem obrigação de fiscalizar o descumprimento dela”, diz Valeria Sousa, da Artemis.

 

O caso nas redes sociais

 

Alguns dias depois de atender a gestante (que não quis ser identificada), o médico obstetra Iaperi Araújo, plantonista do hospital, divulgou em suas redes sociais uma mensagem falando sobre o atendimento ocorrido. “Gente, esta é uma placenta humana”, escreveu ele, anexando foto de uma placenta no post publicado.

 

No texto, o médico afirma que a gestante não havia feito os exames pré-natais, que teria dado um “verdadeiro escândalo” no hospital, e alega que houve conflito na relação médico-paciente: “me tratou mal, gritou comigo (claro que respondi a altura)”, escreve.

 

No restante do depoimento, o médico descreve a gestante como “surtada” e fala que ela “correu nua, sangrando pelos corredores do hospital”. Mas a parte do texto que chamou atenção e fez o caso explodir nas redes sociais foi a que o médico descreve o momento em que a mulher teria pedido para comer a placenta.

 

“Lá pediu uma tesoura prá cortar um pedaço e um pouco de coentro pra temperar. Não tinha. Comeu sem o tempero”. Ao fim do relato o médico se diz chocado, e alega abandonar a obstetrícia.

 

O relato de parto

 

No dia 14 de julho, pouco mais de 10 dias após o ocorrido, a mulher escreveu seu relato de parto e enviou para o Movimento pela Humanização do Parto e do Nascimento em Natal, coordenado por Gabriella Vinhas. Com autorização da mulher, o relato foi  imediatamente enviado para Lígia Moreiras Sena e divulgado publicamente.

 

No texto escrito pela mãe, ela fala do impacto que a postagem do médico teve sobre sua rotina. “ Fui chamada de louca, psicopata, disseram que deveriam tirar meu filho de mim”, relata. “Foram dez dias também de intensificação de todo o sofrimento que me açoita, pois agora eu tenho de lidar com inúmeros telefonemas,  mensagens, pessoas perguntando umas às outras se o absurdo da mulher que teria comido placenta, agredido médico e corrido nua por aí tinha sido eu”.

 

Ela descreve que chegou ao hospital depois de 36 horas de trabalho de parto em busca de assistência obstétrica. Desejava um parto domiciliar, mas o cansaço e a pressão da família a teriam feito desistir. Buscou, então, ajuda em um hospital particular da cidade.

 

No início do relato, a mulher fala sobre o primeiro encontro com o médico. “Quando subi para o atendimento, ouvi um velho grosseiro me gritando: ‘Por que não fez pré-natal??’. Eu respondi: ‘Primeiro, eu fiz pré-natal, mas não trouxe nada comigo, e segundo, o senhor não precisa falar assim comigo, viu?’”. Ela afirma que fez todos os exames e que, um dia antes de entrar em trabalho de parto, um ultrassom teria confirmado a saúde e a posição do bebê ideais para o nascimento.

 

O relato da mulher descreve em detalhes as atitudes do médico e da equipe. Ela afirma que, inicialmente, lhe foi negado atendimento. Que o obstetra provocou o rompimento de membranas no exame de toque sem autorização dela (prática comum em hospitais brasileiros, para acelerar o parto) e realizou uma episiotomia. “Meu pai disse que ele cortou com a tesoura e terminou de rasgar com a mão. Há uns dois dias tive coragem de me ver, e descobri uma episiotomia que me rasgou até o anus”, escreve.

 

Sobre correr nua no hospital, ela conta que teve o pedido de ficar com o filho nos braços negado, e a pediatra levou a criança para o berçário. “Eu estava transtornada. Tentaram me impedir de sair da sala de parto, pois eu estava nua. Foi então que me deram meus trapos sujos de sangue, vesti ali no corredor mesmo, e fiquei gritando na frente do berçário, de portas trancadas, gritando que queria meu filho comigo.” Após discussões, a criança foi entregue ao pai da parturiente pela equipe do berçário.

 

A placenta

 

A placenta é um órgão responsável por envolver e alimentar o feto durante toda a gestação. Depois do nascimento do bebê, o próprio corpo da mulher se encarrega de fazê-la nascer também, com algumas contrações.

 

Em muitas sociedades, as práticas de não cortar o cordão umbilical para manter o bebê ligado à placenta o máximo de tempo possível, e de comer a placenta após o parto são comuns, tendo em vista que a mulher perder muita energia durante o parto e o órgão é rico em nutrientes. Por ser incomum para a sociedade atual, a prática é tida como loucura por alguns.

 

A legislação brasileira, através de uma regulação da ANS, dispões que o membro pode ser solicitado e levado pela pessoa, e cabe ao hospital acondicionar o órgão corretamente.